Arte e Entretenimento

Posted: quarta-feira, 13 de maio de 2009 by Fabiano Fernandes Garcez in Marcadores: ,
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Existe uma linha que separa arte e entretenimento? Não quero entrar em discussões filosóficas, mesmo porque até hoje não se tem uma definição de arte, então pegarei esta: É a representação do ser humano por meio da música, escultura, pintura, dança, literatura, cinema ou teatro para expressar suas emoções, seus sentimentos, sua história, sua cultura, com uma preocupação estética (beleza, harmonia e equilíbrio). O entretenimento é, segundo o Aulete digital, a ação ou o resultado de distrair-se.
Com isso, podemos dizer que arte é a produção de algo sob uma estética por um meio, e entretenimento se dá ao ver, assistir ou interagir com o objeto artístico. Certo? Errado. Não é bem assim, não. Para se ter arte é preciso que haja uma utilidade, - apesar de muitos afirmarem que arte não serve para nada -, utilidade que é a reflexão, a sensibilização, a transformação do espectador. Ficar olhando o teto ou o chão é distrair-se, pode se considerar entretenimento.
O grande problema de hoje em dia é a tentativa da mídia em querer misturar e vender entretenimento por arte. Uma peça de teatro, cuja única preocupação, é vender bilhetes e que para isso o texto apareça recheado de piadinhas estereotipadas, não é arte, ou um livro, cujo enredo sirva apenas para comover os leitores com amores baratos e piegas, também não é arte, assim como não é arte o filme recheado de tiros, batidas de carros, explosões, e por aí vai...
Cheguei a uma conclusão, juntamente com meus alunos, aquilo que é feito para te ajudar a esquecer, por um curto período que seja, de um dia de trabalho cansativo ou algo assim é entretenimento, aquilo que é feito para te fazer pensar, refletir, avaliar, reavaliar a sociedade, o mundo e até você mesmo é arte.

10 comentários:

  1. Fabiano, me diga uma coisa: se , por um lado, uma obra de arte me faz refletir sobre algo, simultaneamenta não faz com que eu me "distraia" em relação a outro algo? Então, de um ponto de vista temos a reflexão e do outro a alienação. Parece óbvio, dado sermos incapazes de pensar duas coisas ao mesmo tempo. No entanto, parece negar a suposição de que Entretenimento seja sinônimo de Distração, pois não pode haver entretenimento sem distração, mas pode haver distração sem entretenimento...
    Resumindo: se a Arte chama a atenção para uma coisa e faz com que eu me distraia em relação a outras, e eu posso me entreter com algo que me cause reflexão, mexa com minha sensibilidade, etc. o que impede a arte de ser considerada entretenimento?

  1. Também acho que a arte pode ser sim uma forma de entretenimento. E não acho excludente uma coisa da outra. Algumas pessoas podem se distrair, divertir, refletindo. Também acho que a arte pode ser sim SÓ entrenimento de lado; assim como também pode ser SÓ reflexão, por outro lado. Enfim, isso varia de indivíduo para indivíduo, pois não há como sabermos o código de referências de cada um; ou seja, qual o "banco de dados conceitual" de cada pessoa. Acho difícil identificar - a partir de qualquer mensuração que seja-, que a reflexão, mesmo que exaustiva, faça alguém se sensibilizar e reavaliar a sociedade; e por outro lado, identificar que outra pessoa esteja apenas se distraindo. Portanto, acho complicado confirmar essa hipótese positivada da arte como utilidade e, antes disso, avaliar as relações de causalidade que coloquei anteriormente. Além do mais, o que é a utilidade?

  1. Caros amigos,

    Acho que o objetivo de minhas crônicas, que é levantar discussões e não conceituar nada arbitrariamente, está sendo atingido. Vamos lá, tentar pontuar algumas coisas...
    Iniciei o texto levantando essa questão: Existe diferença? E parti para a resposta seguindo os conceitos por mim escolhidos. Acho que a diferença está na motivação de se fazer algo, ou seja, se algo te incomoda e você quer exteriorizar isso, para tanto precisar usar um meio (música, literatura, escultura, teatro, cinema, etc.) na minha concepção, é arte. Já se você quer fazer algo visando apenas o lucro, pois faz parte de uma indústria, seja ela de Best Seller ou Hollyodiana, não é arte. Pegamos como exemplo um livro, que tal Vidas Secas, ele é uma obra de arte, pois não teve nenhuma outra motivação além de exteriorizar toda a preocupação com os fugitivos da seca de uma região, ele nos é útil justamente por essa denúncia, para muitos na época de seu lançamento mal sabia que existia um lugar do Brasil que não chovia, e além disso o livro tem uma preocupação estética, linguagem concisa, simbologias, analogias, ironias e por aí vai. No entanto podemos fazer algumas dessas considerações sobre Marley e Eu? Qual a sua motivação? Falar sobre um cachorro de estimação? Qual a sua utilidade? O que podemos aprender com esse livro? Qual a sua preocupação estética? Eu tentei juro que tentei encontrar mas não consegui, embora muitas pessoas me afirmem que é um bom livro, talvez seja mesmo, apenas para a distração, para nos fazer esquecer que estamos dentro de um ônibus ou metrô lotado, em pé, que estamos cansados de trabalhar tanto e amanhã tudo isso se repete ...

  1. Galera, o negócio tá interessante!

    É bom saber que nenhum de nós encontrou a Verdade da Arte. Então discutamos:

    Por ora não estou convencido de que a arte exista para ser útil. Pra que serve a Monalisa? Diferente seria perguntar: qual o objetivo da Monalisa? E mesmo assim seria uma "pergunta questionável". Sou levado a acreditar que a Monalisa PODE causar várias coisas em mim, inclusive a reflexão, o agrado aos sentidos, etc. Por outro lado, dizer que a Monalisa serve para algumas coisas é dizer que ela não serve para outras; se o bombril tem 1001 utilidades não tem 1002. Parece que Eu posso ENCONTRAR utilidade na Monalisa, assim como parece que isso é problema meu, e não da Monalisa. Quantas utilidades tem a Monalisa? Quantas utilidades EU posso ENCONTRAR na Monalisa? Já encontramos uma: Fazer com que eu pergunte essas coisas.

    É claro, se um sujeito bem intencionado for ler Marley e Eu, pode encontrar temas diversos para reflexão, pode encontrar sensibilidade. O que nesse caso seria mérito do sujeito bem intencionado e não da qualidade da obra analisada. Em outras palavras: uma boa obra de arte me mostra algo que não quero ou não posso ver por "mim mesmo", enquanto o resto faz com que eu veja apenas o que quero, de uma forma ou de outra.

  1. Caro Fabiano, qualquer questão pode acabar levantando questões, pois como você mesmo observou, você utilizou conceitos escolhidos por você, e por isso, pode ser que a gente tenha dúvida ou queira conversar sobre. Você definiu a arte de uma maneira, o André definiu de outra, e nessa diferença as discussões vão caminhando. André, também não estou certo da utilidade da Monalisa; assim como você, também acho que a arte pode ter várias "utilidades" - uma para cada momento. Para o meu caso, é um conceito relativo e mutável. Apesar de que algumas características aqui discutidas podem se apresentar no decorrer do tempo: tanto pontos colocados pelo Fabiano no texto "representação do ser humano por meio da música, escultura, pintura, dança, literatura, cinema ou teatro para expressar suas emoções, seus sentimentos, sua história, sua cultura", tanto como pelo André "uma boa obra de arte me mostra algo que não quero ou não posso ver por "mim mesmo". Essas coisas de conceituar sempre dá pano pra manga; há muito espaço de manobra para relativizações - ainda mais se ficarmos atentos para nossos (pré)conceitos, dogmas de uma sociedade, etc.

  1. Pessoal,


    Não acho que o papo deva seguir por esse caminho, porque, acho eu, que não devemos aceitar e acatar qualquer coisa como arte, então devemos aceitar qualquer pessoa se considerando poeta, pintor, etc. Será que não existe nada que controle isso? Posso então pintar ou apreciar uma folha em branco em um papel em branco e dizer: É arte! E todos acreditar nisso! E o bom gosto e o bom senso (já diria o Lobato)onde fica?
    Seguem as palavras de um pensador a respeito da arte:

    Para conseguir ser um artista, é necessário dominar, controlar e transformar a experiência em memória, a memória em expressão, a matéria em forma. A emoção para um artista não é tudo; ele precisa também saber tratá-la, transmiti-la, precisa conhecer todas as regras, técnicas, recursos, forma e convenções com que a natureza – esta provocadora – pode ser dominada e sujeitada à concentração da arte. A paixão que consome o diletante, serve ao verdadeiro artista; o artista não é possuído pela besta fera, mas doma-a; (ERNST FICHER - A necessidade da arte)

    A função da arte não é a de passar por portas abertas, mas é a de abrir as portas fechadas. (Ernst Fisher, 1973)

    Ou outro:

    Informação em arte “é o estudo da representação do conteúdo informacional de objetos/obras de arte, a partir de sua análise e interpretação e, nesse sentido, a obra de arte é fonte de informação “e, ao mesmo tempo, expressa “múltiplas manifestações e produções artísticas (PINHEIRO, 1996).

    "A arte é, foi, e ainda é o elemento essencial da consciência humana" (Read, Herbet - A educação pela arte)

    “A gente não quer só comida, a gente quer bebida, diversão e arte!”
    (Arnaldo Antunes, Marcelo Fromoer, Sérgio Britto - Titãns)

    Acho que dá mais pano para a manga ...

  1. Obs: Postei antes de ler os comentários do Pedro Paulo

  1. Olá Fabiano! Reconheço que a arte tem o sim seu lado técnico, laboroso, de transpiração mesmo e que, por isso, o verdadeiro artista tem uma percepção avançada; um trabalho que vai além da simples inspiração e de emoções baratas ou dores de cotovelo quando compara-se com algo que não tem nada a ver com arte. Não estamos querendo dizer que qualquer coisa pode ser obra de arte, mas sim que devido ao fato da arte ter múltiplas manifestações, algumas dessas podem estar além dos nossos conceitos e interpretações.

  1. Olá Amigos,

    Acho salutar e esclarecedora nossa discussão, sei que toda obra de arte toca em nossas emoções e em nossos sentimentos, ela não é só para o lado racional, o livro do Fisher é sobre isso,- A necessidade da Arte -, em nenhum momento disse, ou tive a intenção de dizê-lo, o contrário. A crônica era para ser uma crítica aos meios de comunicação que fazem com que todos nós confundamos Arte e Entretenimento, não vejo superioridade da arte ou do entretenimento, mas que são diferentes são! Por outro lado, sei dos reais motivos da mídia de tentar confundirmos e esses motivos são apenas comercial e financeiro. Arte é arte e entretenimento é entretenimento e ponto. Cada qual com "utilidades ou necessidades", mas se queremos "consumir" o entretenimento que não seja vendido como arte. E isso porque ainda não colocamos em discussão a Cultura.

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