Posted: segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 by O Blog dos Poetas Vivos in Marcadores:
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A lenda da falta de dinheiro

Posted: by Fabiano Fernandes Garcez in Marcadores:
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Dizem as más línguas, até mesmo porque as boas pouco falam, que num país distante, muito distante, distante mais ainda quatro vezes, mas, muito parecido com o nosso Brasil: na língua no tamanho no futebol na safadeza, em tudo! Se não fosse tão distante, iam dizer que era o próprio Brasil, mas não era não! Era não.
Um dia o dinheiro todo desapareceu, sumiu, escafedeu-se! O dinheiro todo, todinho, não se sabe se foi feitiço ou encanto, obra de Deus ou do Diabo, de alguma criança, porque criança às vezes é tudo anjinho e às vezes é tudo diabinho ou os dois de uma vez só e adoram brincar e fazer graça!
Nesse país todo não havia mais dinheiro nenhum, nem pra contar história, nem pra remédio. Dinheiro estrangeiro sobrou? Nem nenhum. Nada!
Os ricos que eram muitos, mas poucos comparados aos pobres, que só pensavam em dinheiro e não existia mais dinheiro para pensar, diziam que não existindo mais dinheiro eles também não iriam existir e assim fizeram. Morreram.
Não morreram todos não! Sobraram aqueles que não só pensavam em dinheiro, pensavam em outra coisa também, um exemplo é a Cléia, era rica, mas era feia, feia de dar dó, feia como bater na mãe por causa de mistura, mais feia que filhote de cruz-credo! Ela arrumou um namorado, e sem dinheiro para comprar um presentinho para ele, arrumou na feira uma moréia, aquele peixe que é cumprido, bravo e feio, não tendo onde colocar, colocou ele na bolsa, depois de amassar e beijar bem o namorado, pediu para ele pegar o seu presente na bolsa dela, ele fez, mas a moréia lascou uma dentada nos dedões dele que rancou naco! Ele pensou que o presente era a dentada e ficou com uma raiva danada! Espalhou a história.
Todo mundo ficou sabendo e apontavam ela dizendo:
_ Lá vai Cléia da moréia!
Depois virou a moréia da Cléia, e como a língua do povo simplifica tudo, virou a Mocréia, por isso que nesse país mulher feia hoje todos chamam assim.
Voltando, deixa desviar não!
Os pobres, que choramingavam a falta de dinheiro, choram tanto, tanto, mais tanto, porque a falta de dinheiro era tanta, que eles morreram também. De secura! Mas antes de morrer encheram o mundo de criança, que para fazer criança não precisava de dinheiro e paravam de chorar um bocadinho.
A criançada, essa cresceu! Fizeram tanta festa com doces pirulitos balas, tudo menos verdura, e isso nem precisava dizer! Não precisava de dinheiro para nada! Iam jogar jogo eletrônico jogo de truco jogo de futebol jogo de vôlei, jogo de damas, até jogo de jantar! Era uma belezura para a criançada tudo era pura diversão!
Havia pessoas que viviam bem sem dinheiro, diziam que dinheiro não era nada e ninguém nunca não precisava dele! Essas viveram melhor ainda!
Comprar ninguém mais comprava, trocava, dava, emprestava, os que pedia de volta ficavam corcunda, é o que acontece com quem empresta e pede de volta, segundo a lenda nesse país,
Iriam comprar como sem dinheiro? Não compravam, faziam assim:
_ Meio quilo de toucinho por um quilo de farinha!
_ Um galo vivo por duas canja de galinha!
_ Um beijo e três cafunés por uma carta assinada!
_ Três litros de óleo por uma carne assada!
_ Toma lá e dá cá, tome isso que dá nisso!
_ Cê ta loco? Loco é ocê ! Você não vê que isso é chouriço!

Num dia desses de troca-troca, um capiau do interior desse país estava numa sede para pitar um cigarrinho de palha, mas com o fim do dinheiro fazia tempo que ele não pitava.
Era de sorte. Passou por ele um jovem cabeludo, olhos vermelhos que nem fogueira de São João, conversa vai, conversa vem, que todo capiau, bom mesmo é de prosa, conseguiu com o cabeleira um punhadinho de fumo que não era de corda não!
Como não tinha onde carregar o fumo, pôs no sapato, chegou em casa guardou em baixo do colchão e fumo era fedido, muito fedido. E com o fumo fedido capiau acostumou.
Pitava, pitava sempre, pitava bem, pitava até olhinhos ficarem em brasa, depois dava uma moleza. Nem perguntava mais porque fumo era tão fedido e não era de corda não.
Certa vez caiu de cócoras como de costume e começou a pitar, calma, tranqüilamente. Pitava só vendo fumaça subir. Encostou perto um dos guardas desse país e deu cheirada no ar, deu safanão no capiau e pediu para ele cuspir no chão, capiau tentou, não conseguiu não. Cuspi estava seco só.
O guarda aguardava aguado, capiau sozinho se ria do guarda que havia tomado seu fumo. O guarda falou:
_ Quê que ta fazendo aqui?
_ To pitando sô!
_ Que pitando que, isso não é cigarro não!
_ É sim, cigarrinho bão!
_ Cheira cheiro mau.
_ Ele cheira fidido assim, porque pus ele embaixo de colchão de dormir, umideceu, estragou, mas ainda tá bom sim!
_ Vai preso ou leva sova, escolhe pra mim!
É por isso que depois daquele dia nesse país, todos que pitam fumo que cheira fedido e não é de corda não, tem que pitar escondido, senão: vai preso ou toma sova de guarda de plantão.
Depois de algum tempo, algum não, muito tempo! Que ser humano não aprende logo de saída, demora, padece primeiro, eles começaram a perceber algumas coisas sem importância, como: honestidade bondade simplicidade caráter índole educação, coisas que o dinheiro escondia, e agora não tinha mais dinheiro para esconder tudo isso atrás dele.
Namoro por interesse? Não tinha mais não. Golpe do baú? Também não. Puxa-saco? Sumiu tudo. Mulher que agüentava marido? Não agüentava mais não!
Sapato de plástico era sapato, de couro de jacaré era sapato, de couro de boi era sapato, de couro de pelica era sapato, botina de lona era sapato, não tinha mais o dinheiro para dizer esse é bonito esse é feio. E era bonito o que era bonito e feio o que era feio!
As pessoas começaram a tratar melhor umas as outras, pois eram tudo gente igual, agora não tinha mais o dinheiro para dizer esse é gente boa esse não é não.
Dizem que nesse país dinheiro não tem até hoje, e a maioria da população passa aperreio, que é o nome que se dá para o ato de ficar sem dinheiro, e que Deus fez o dinheiro nunca não existir para as pessoas repararem mais no interior das outras pessoas e no seu também.

A questão da propriedade privada na concepção de Rousseau - Roberta Villa

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Introdução
Crítico e polêmico, Jean Jacques Rousseau, como homem do século XVIII, procurou realizar uma análise científica da humanidade. O ponto central de seu pensamento foi a oposição entre natureza e sociedade, bem como a questão sobre a desigualdade entre os homens e o conjunto de elementos que os legou a tal condição: que separa ricos e pobres, magistrados e fracos, senhores e escravos.Refletindo acerca da condição humana, das leis da natureza, tanto quanto da situação do homem civil e de sua degeneração moral, Rousseau levantou interessantes questões sobre o trajeto do estado “de natureza” do homem até a chegada ao estado plenamente social.


Segundo o autor, no contato direto com a natureza é que o homem encontra o pleno sentido da liberdade. Partindo desta concepção, formula o conceito de “estado de natureza", o qual nunca existiu efetivamente, porém, em sua filosofia serve como um patamar de comparação. Neste estado de natureza o homem vivia de forma solitária e simples, inocente e feliz. Todavia, o homem natural preocupava-se apenas com a sua conservação, sem se amargurar com o dia de amanhã. Agia por extinto, não tinha paixões ou sentimentos de vaidade, egoísmo. A noção do teu e do meu não havia, pois, o que legitima este conceito - a idéia de posse ou de propriedade – também não existia. Assim, o homem natural era uma extensão da própria natureza e tudo o que era natural, como as frutas, as ervas, os riachos, lhe era familiar e disponível (como direito natural). Deste modo tudo era de todos e por isso não fazia sentido as disputas por terra, comida e posse.


Dentro deste contexto a posição de Rousseau acerca da propriedade deve ser compreendida como conseqüência da análise que faz do homem e sua transição para a vida social. Na obra “Discurso sobre a Desigualdade” são apontados motivos que aproximam os homens para o convívio e, conseqüentemente, para a sociedade. Justamente no estágio civilizado que a propriedade se estabelece e com ela surge a desigualdade, que para o autor é a origem de todos os males. A propriedade privada foi o que gerou o modo degenerado de conduta moral dos indivíduos.


Não obstante a civilização, para Rousseau, impôs o nivelamento e a artificialidade sobre o comportamento humano ao ignorar as necessidades individuais e naturais. Contudo, em sua teoria Rousseau não pretendia impor uma regressão da sociedade ao estado primitivo, e sim, repensar os valores do mundo moderno que brutalmente se sobrepõe aos valores inatos dos homens.



A questão da propriedade privada na concepção de Rousseau
Percebe-se na obra de Jean Jacques Rousseau, o papel do “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” em denunciar as mazelas da desigualdade política desde sua origem. É precisamente na segunda parte do livro que o autor nos expõe explicitamente a sua idéia acerca da propriedade:


“O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado o terreno lembrou-se de dizer “isto é meu” e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não poupariam ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “evitai ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém” (p. 63).


A partir deste parágrafo nota-se como a instituição da propriedade representa efetivamente a passagem da ordem natural para a formação da sociedade civil fundamentada na moral do “isto é meu”. Contudo, é importante salientar que o parágrafo reproduzido acima é na verdade um artifício retórico do autor para enfatizar a questão, que de fato vem sendo discutida desde o início da obra como um processo. No mais, com a instauração da propriedade privada motivada pela articulação de vários elementos ordenados por Rousseau - como a o perfectibilidade, a vida em família, o amor próprio e a divisão do trabalho – é que a desigualdade irá consumar-se como a barbárie da sociedade moderna. Entretanto, o autor se refere a desigualdade moral ou política, gerada por convenções sociais; e não a desigualdade natural – que compreende diferenças físicas, de mais forte e mais fraco, de homem e mulher, etc.Todavia, para que as relações entre propriedade e desigualdade sejam realmente compreendidas, faz-se necessário realizar uma digressão não só pela obra, como também por toda a história da humanidade.

Logo no Prefácio do “Discurso sobre a desigualdade entre os homens”, é narrada a constituição do homem e o processo de sua degeneração social; para tanto Rousseau fará uso de um hipotético “estado de natureza humana” a fim de resgatar os possíveis valores e ações inatas ao homem. É importante ressaltar que este elemento de resgate do “estado de natureza do homem” é um artifício retórico utilizado por outros autores - que assim com Jean Jacques buscaram compreender a natureza do nosso comportamento social – como por exemplo, os pensadores que lhe antecederam, Thomas Hobbes e Jhon Locke. Contudo, no pensamento de Rousseau o estado natural do homem diverge dos anteriores; Locke e Hobbes nos apresentam um estado de natureza como algo violento, um período instável e inseguro qual a humanidade deveria superar ao evoluir para a civilização. Já para Rousseau o estado natural do homem é de plena liberdade onde se vive em comunhão com a natureza e de forma autônoma, assim, sem necessidade de ajuda de outros, sem paixões, luxo ou amarguras, o homem vive bem, satisfeito; a sua única preocupação era em manter a subsistência. Neste estado de natureza a única desigualdade que é possível haver entre os homem é fruto da própria natureza, como a diferença de tamanho, força, juventude, etc.; no entanto essas diferenças não fazem com que um sobrepuje os demais, nem lhe causa vaidade ou egoísmo.No estado de natureza não há propriedade, tudo é de todos.

Todavia, para Rousseau o homem primitivo não pode ser responsabilizado pela condição de desigualdade em que se encontra a civilização, pois, a essência do homem é naturalmente boa devido a compaixão resultante do sentimento de auto-preservação: o amor de si. Este é o instinto natural que evita a dor, o sofrimento e a morte, fazendo com que o ser humano se identifique com a dor daquele que padece em especial aqueles de sua espécie. A partir deste principio formula-se, então, a teoria da bondade original. Portanto a compaixão contribui não só para auto-preservação do individuo e sim, para toda a espécie humana.
A medida que as dificuldades do meio se apresentavam ao homem, ele teve de superá-las, e desta forma vai adquirindo novos conhecimentos. Esta característica própria do homem, que o difere dos demais animais, consiste em aprender e adaptar-se ao ambiente e suas dificuldades, criando novas alternativas de sobrevivência; Rousseau a denominará por Perfectibilidade. É por conseqüência da perfectibilidade que o homem natural aprendeu a pescar, caçar e por vezes a associar-se a outros homens.



“Aprendeu a dominar os obstáculos da natureza, a combater, quando necessário, os outros animais, a disputar sua subsistência com os próprios homens ou a compreender-se daquilo que era preciso ceder aos mais fortes.” (p.64).



As primeiras associações entre os homens foram aleatórias, esporádicas e se resumiam apenas à necessidade de uma ação objetiva e efêmera; como podemos supor que era a situação de uma caçada. Entretanto, ao perceber que era mais fácil e prático sobreviver coletivamente os homens foram se organizando desta forma. Neste ponto é que surge a primeira "revolução": a construção de abrigos - fazendo com que o homem natural permanecesse mais tempo em um mesmo lugar. Outra importante conseqüência da associação humana foi o desenvolvimento da linguagem: “...quando as idéias dos homens começaram a se estender-se e a multiplicar-se, e se estabeleceu entre eles uma comunicação mais íntima, procuraram sinais mais numerosos e uma língua mais extensa...” (p. 52).


Foi no desenrolar deste processo de associação humana que surgiram as famílias e com elas desenvolveram-se sentimentos ternos: o amor conjugal e o amor paterno.Nesta fase havia um precário sentimento de posse, entretanto, se o homem conseguisse se manter neste estágio pré-social e pré- moral, com poucas necessidades e sem desejos, provavelmente o sentimento de posse não iria subvertê-lo a maldade da sociedade moderna.

Mas, bastou que a pequena comunidade envolvida em atividades rotineiras - como sentar-se a volta da fogueira, cantando e dançando - passasse a se enxergar, que cada indivíduo desejou exclusivamente ser notado. Os homens começam a se comparar e mediante esta situação surgem as impressões de que havia o melhor, o mais forte, o mais bonito, o mais hábil. Estava dada a grande faísca que ascenderia a nossa fogueira de vaidades.

“Assim, o primeiro olhar que lançou sobre si mesmo produziu-lhe o primeiro movimento de orgulho...” (p.65)


Pouco á pouco o homem vai se afasta de deu estado natural e dos valores que a ele é inato, como a compaixão. O amor de si é substituído por um uma paixão própria do estado social o “amor próprio”. Este novo tipo de “amor” é o que solidificará a base moral do homem social, que tende a estimar e priorizar sempre a si do que aos outros ou ao coletivo. Ao contrário do amor de si - nem bom, nem mal, apenas instinto – o amor próprio, que se origina na comparação com o outro, é artificial e acaba por se tornar o germe dos vícios sociais tal como o ciúme, o ódio e a vingança.


Ainda dentro do processo de vivencia comunitária é que o homem desenvolverá novas técnicas como a agricultura e a metalurgia, evento ao qual Rousseau nomeia de "a Grande Revolução". A partir destes eventos ocorre também a divisão das terras e sobretudo a divisão do trabalho, criando condições propícias para a fatal dependência entre os homens, uma vez que agora era possível que um homem trabalhasse por dois.


“Desde o instante em que um homem sentiu necessidade do socorro de outro, desde que se percebeu ser útil a um só contar com provisões para dois, desapareceu a igualdade, introduziu-se a propriedade, o trabalho tornou-se necessário e as vastas flores transformaram-se em campos aprazíveis que se impôs a regar com o suor dos homens e nos quais logo se viu a escravidão e a miséria germinarem e crescerem com as colheitas.” (p.69).


Tanto a passagem do amor de si para o amor próprio quanto a divisão social do trabalho e das terras foram cruciais para a consolidação da noção de posse.É importante ressaltar que para Rousseau, o homem se corrompe de fato após a instituição da propriedade privada, que irá estimular e perverter sentimentos de caráter egoístas e mesquinhos.

Neste ponto, retornamos agora ao início do texto quando se apresenta o trecho que sintetiza a essência da propriedade privada para a consolidação da sociedade moderna: “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado o terreno lembrou-se de dizer “isto é meu” e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo”. Neste momento, a época do estado de natureza terminou definitivamente, decorrente das transformações que a perfectibilidade proporcionou. A propriedade, uma vez consolidada, dará origem há inúmeros conflitos que refletem a ambição humana. Devido a ambição é que o homem irá sobrepujar-se ou prostrar-se diante de outro, afirmando relações antes ilegítimas tal qual a escravidão. Os frutos da terra passam a ser produzidos não mais para suprir necessidades básicas, e sim para que alguns lucrem em detrimento de outros.


A posse da terra e a divisão do trabalho tornam-se elementos de hierarquização tanto de status quanto de condições econômicas entre os homens e fragmenta a humanidade em ricos e pobres, poderosos e fracos Deste modo são alicerçados os governos e leis. Ao denunciar a fragilidade das leis e da sociedade civil e descrever o modo e os motivos pelo qual a humanidade entregou sua liberdade e dissipou sua igualdade, Rousseau nos expõe a uma questão jurídica das mais complexas e polêmicas: “o que legitima o direito de propriedade?”.

O direito de propriedade não encontra sua legitimidade no estado de natureza pois é fruto de uma convenção humana. Tem-se então que a liberdade natural foi trocada pelo que se pode chamar de liberdade civil. Todavia, é na obra “Do Contrato Social” que o autor busca responder a estas questões e aponta um caminho para solucionar a crise de degeneração que a civilização moderna legou á humanidade.


Rousseau aponta que a sociedade política, a autoridade e o Estado foram criados pelos homens mediante um contrato com a finalidade de manter a ordem e evitar maiores desigualdades. Por meio desde contrato o homem aliena ao Estado parte de seus direitos naturais - o direito à vida, à expressão do pensamento, à locomoção, etc. – para que enfim, sobressaia-se o que é a vontade geral.

Ou seja, de acordo com a obra “O Contrato Social” o homem abre mão de sua liberdade natural e recebe em troca a liberdade civil “e a propriedade de tudo que possui” (p. 36). A vontade geral é nada mais do que a manifestação da soberania, e a soberania é a vontade do povo sendo inalienável e indivisível – e afirmar que a soberania é propriedade do povo causou muita discussão na época em que Rousseau escreve sua obra.

Não obstante, a vontade geral é estabelecida para garantir condições de igualdade a todos, portanto, a liberdade, a igualdade e a ordem civil estão asseguradas mediante a um contrato social genuíno que prevê um novo direito de propriedade.Dentro desta perspectiva os eleitos do povo para governar são apenas representantes que devem executar a vontade geral; o que nos indica que Rousseau apoiaria a democracia direta ao defender a criação de pequenos Estados para facilitar o exercício democrático – pois a população pequena pode reunir-se com mais freqüência e desse modo os cidadãos partilham da autoridade soberana. Rousseau concebe uma idéia de democracia baseado num principio em que os interesses arbitrários do indivíduo devem dar lugar à construção coletiva daquilo que permite a igualdade entre todos.


Então, sobre a questão da propriedade dentro da ordem civil, o autor propõe que seja repensado e reformulado uso da propriedade com a elaboração novas cláusulas legislativas a fim de suprimir os abusos conseqüentes da exorbitante acumulação individual de propriedades. Rousseau propõe que a propriedade deve estar subordinada aos interesses da vontade geral, uma vez que a lei deve ser expressão da soberania do povo.

Conclusão

A busca pela igualdade e a liberdade são os grandes paradigmas da filosofia de Rousseau; tanto que os princípios de liberdade e igualdade política por ele formulados inspiraram as matrizes teóricas dos setores mais radicais da Revolução Francesa - quando foi destruído o que sobrava da monarquia e instalado o regime republicano.Com base em fatos históricos pode se dizer que o pensamento de Rousseau é revolucionário em dois sentidos: na restauração das antigas liberdades e na reconstrução completa da ordem tradicional. Contudo, diferente da ideologia iluminista, Rousseau foi contrário a todo tipo de individualismo, pois este supõe a oposição entre individuo e a coletividade. Na verdade o que ele defendia era a necessidade de restaurar a pureza original dos costumes do homem, corrompidos pela sociedade moderna.

Uma das principais intenções de Rousseau ao elaborar o “Discurso sobre a Desigualdade”, é demonstrar como a liberdade natural do homem foi perdida com o advento da propriedade privada. Esta se insere como divisor de águas entre o estado de natureza e o estado civilizado. A passagem entre estes dois mundos inicia efetivamente o processo de degeneração moral dos homens por meio da noção de posse, da necessidade de afirmar: “isto é meu!”. O resultado desta concepção será a legitimação da violência tanto para conter os dominados como para ameaçar os dominadores.

O início da civilização é corrupto, como também o é seu desenvolvimento dentro da complexa teia de relações e hierarquizações sociais que se estabelecem. Os ricos e poderosos encontraram cada vez mais meios para manter seus domínios, que vão desde a força bruta pelo direito do mais forte, até a dissimulação do governo e das leis que se presta a legitimar tal dominação.
Da teoria de Rousseau aplicada a nossa realidade, podemos tirar como exemplo a concentração da renda, da terra, e dos meios de produção nas mãos de uma ínfima minoria da sociedade. Desta forma uma elite aviltante sobrepuja a humanidade, e a liberdade e igualdade natural são violadas na mesma proporção em que caminhamos para a violência e exclusão. Pode-se dizer que Rousseau é uma das bases do pensamento político moderno, influenciando a elaboração de diversas Constituições e também com seus ideais de a participação direta do povo..

Por fim, a teoria de Rousseau trás uma articulação entre análise política e a antropológica, pois não nos são apresentado apenas as leis e a sociedade como devem ser, mas também os homens como podem ser. E ainda, a articulação entre educação e política, de modo a que estas passassem a levar em conta as necessidades naturais do homem. Rousseau acredita no poder de transformação pela educação, como caminho para a conquista de uma sociedade na qual predomina a vontade geral. Para ele é por meio da educação que o ser humano no estado social poderá desenvolver plenamente capacidade de participação da vida política e respeito á vontade geral, desta forma a organização jurídica, política e moral da sociedade é resultado da formação dos cidadãos.

Sobretudo, se a bondade natural do homem foi corrompida pela sociedade moderna, é dever da sociedade recuperá-la. Para tanto é imprescindível reformular profundamente, tanto do sistema educacional, quanto de organização do Estado.

SE JESUS VOLTASSE HOJE

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Quem acreditaria
se Jesus voltasse hoje?
Mas, se ele voltasse,
seria brasileiro

Nasceria na periferia
de São Paulo
seria negro?
Cantaria RAP?

Sobreviveria a
Mortalidade infantil?
Exclusão social?
E a violência sobreviveria?

Se Jesus voltasse hoje
Nasceria no sertão da Paraíba,
ou Pernambuco.
Teria voz grave e rouca
para falar a multidão
e cantar repente

Sobreviveria a seca?
a fome?
Sobreviveria ao racismo?

Se Jesus voltasse,
hoje no Brasil
dormiria nas ruas?
Comeria de favor?

Chamaria Jesus?
Genésio, Gésio
Ou Mané, José, João
Benedito, Romão?
Precisaria Ele de nome?

Seria católico?
evangélico?
Seria caótico?
Seria cristão?
Espírita?
Novamente judeu?
Seria Jesus ateu?

Acreditaria nele os Deuses?
Dessas religiões?
Seus seguidores?
Seus patrocinadores acreditariam?

Ou prefeririam acreditar
Naquele de barro, louça,
gesso ou madeira
Que fala pela boca dos outros
Se Jesus voltasse hoje,
Falaria o que já falou?
Se é que falou

Saberia Jesus escrever?
Seria um teólogo?
Para saber sobre as religiões?
Agora dessa vez, caso
voltasse, desrespeitaria as regras
como já fez?
Se Jesus voltasse quem
acreditaria?

Poesia se é que há p.87